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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Inicio dos exercícios espirituais no Vaticano

Por Felipe Viana 


     As  8:00 h  de hoje, primeiro domingo da Quaresma, na Capela Redemptoris Mater Palácio Apostólico Vaticano irá começar os Exercícios Espirituais, que são atendidas pelo Santo Padre Bento XVI.
     As meditações serão ditados pelo cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura.
     O retiro terminará na manhã de sábado, 23 de fevereiro.
Na semana dos Exercícios Espirituais são suspensas todas as audiências, inclusive a Audiência Geral de quarta-feira 20 de fevereiro.

Fonte: Boletim Diário da Santa Sé 

As tentações são falsas imagens de homem, Papa bento XVI antes do angelus

Por Felipe Viana 



Queridos irmãos e irmãs!

     Na última quarta-feira, com o tradicional rito das cinzas, entramos na Quaresma, tempo de conversão e penitência em preparação para a Páscoa. A Igreja, que é mãe e mestra, chama todos os seus membros a ser renovados no espírito, para re-orientar de perto a Deus, negando o orgulho eo egoísmo para viver no amor. Neste Ano da Fé Quaresma é um tempo propício para redescobrir a fé em Deus como uma base de critério da nossa vida e na vida da Igreja. Isso sempre envolve uma batalha, uma batalha espiritual, porque o espírito do mal, naturalmente oposta à nossa santificação e procura fazer-nos desviar do caminho de Deus para isso, o primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho é proclamado todos os anos das tentações de Jesus no deserto.

     Jesus, de fato, depois de receber "doação" como o Messias - "ungido" pelo Espírito Santo - o Batismo no Jordão, foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Ao iniciar o seu ministério público, Jesus teve para expor e rejeitar as falsas imagens de Messias que o tentador propostas. Mas estas tentações são falsas imagens de homem, em todo tempo minar a consciência, disfarçado como proposta acessível e eficaz, mesmo bom. Os evangelistas Mateus e Lucas têm três tentações de Jesus, diversificando apenas parcialmente para a ordem. Seu núcleo é sempre em Deus para explorar para seus próprios interesses, dando mais importância aos bens de sucesso ou material. O tentador é sorrateira: ele vai diretamente para o mal, mas a um falso bem, fazendo crer que a verdadeira realidade é poder e que atenda às necessidades básicas. Desta forma, Deus torna-se secundária, é reduzido à metade, em última análise, torna-se irreal, não importa mais, desaparece. Em última análise, o que está em jogo na fé tentações, porque Deus está em jogo nos momentos decisivos da vida, mas, em retrospectiva, a qualquer momento, estamos em uma encruzilhada: queremos seguir-me ou Deus? O interesse individual ou o bem real, o que realmente é bom?

     Como podemos ensinar os Padres da Igreja, as tentações são parte da "descida" de Jesus em nossa condição humana, para o abismo do pecado e suas conseqüências. A "descida" de que Jesus veio para o fim, até a morte da cruz e do submundo da separação extrema de Deus deste modo, Ele é a mão que Deus tendeu para o homem, a ovelha perdida, para trazer de volta segurança. Como ensina Santo Agostinho, Jesus tirou de nós a tentação, para nos dar a vitória (cf. Enarr Psalmos em, 60,3:. PL 36, 724). Portanto, não temem a enfrentar-nos também lutar contra o espírito do mal, o importante é o que fazemos com ele, com ele, o vencedor. E para estar com ele virar para a Mãe, Maria: Invoquemos com confiança filial em tempos de provação, e ela vai sentir a presença poderosa de seu divino Filho, de rejeitar as tentações com a Palavra de Cristo, e, assim, colocar Deus no centro de nossas vidas.

Fonte: Boletim Diário da Santa Sé 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Homilia do Santo Padre na Missa de imposição de cinzas

Por Felipe Viana 





Venerados Irmãos, 
Amados irmãos e irmãs!

    Hoje, quarta-feira, começamos um novo caminho quaresmal, uma viagem que se estende por 40 dias e nos conduz à alegria da Páscoa, a vitória da vida sobre a morte. Seguindo a tradição romana antiga de stationesQuaresma, estamos hoje aqui reunidos para a celebração da Eucaristia. A tradição diz que o primeiro statio ter lugar na Basílica de Santa Sabina no Aventino. As circunstâncias sugerem reunir na Basílica de São Pedro.Somos muitos em torno do túmulo do Apóstolo Pedro também pedir sua intercessão para o caminho da Igreja neste momento em particular, renovando a nossa fé no Supremo Pastor, Cristo, o Senhor. Para mim, é uma boa oportunidade para agradecer a todos, especialmente os fiéis da Diocese de Roma, enquanto me preparo para concluir o ministério petrino, e pedir uma especial lembrança na oração.

     As leituras foram proclamou que nos fornecem ideias que, pela graça de Deus, somos chamados a fazer atitudes concretas e comportamentos durante a Quaresma. A Igreja propõe-nos, em primeiro lugar, o forte apelo que o profeta Joel falou para o povo de Israel: "Assim diz o Senhor, volte para mim de todo o vosso coração, com jejuns, com choro, e com pranto" (2.12). Por favor, note a frase "com todo o meu coração", o que significa que o centro de nossos pensamentos e sentimentos, das raízes de nossas decisões, escolhas e ações, com um gesto de liberdade total e radical. Mas isso é possível de volta para Deus? Sim, porque há uma força que não reside em nossos corações, mas que emana do coração de Deus e 'o poder da sua misericórdia. Diz o profeta: "Volta para o Senhor, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, lento para a ira, rico em amor fiel, pronta para se arrepender do mal" (v. 13). O retorno ao Senhor, como você pode 'graça', porque é a obra de Deus e fruto da fé que nós colocamos na sua misericórdia. Este regresso a Deus se torna uma realidade em nossas vidas apenas quando a graça de Deus penetra no íntimo e sacode-lo, dando o poder de "rasgar o coração." É ainda o profeta a ressoar com estas palavras de Deus: "Rasgai vossos corações e não as vestes" (v. 13). Na verdade, mesmo hoje, muitos estão prontos para "rasgar as vestes" de escândalos e injustiças - é claro feitas por outros - mas poucos parecem dispostos a agir em seu "coração" próprio na sua consciência e suas próprias intenções, deixe o Senhor transformar, renovar e converter.

     Este "voltar a mim de todo o vosso coração", então, é um lembrete que envolve não só o indivíduo, mas a comunidade. Sempre ouvimos na primeira leitura: "Tocar a buzina em Sião, proclamar um jejum solene, convoquem uma assembléia sagrada. Reúna as pessoas, compor uma assembléia solene, congregai de idade, reuniu as crianças e os bebês no peito; Deixe o noivo sair de seu quarto ea noiva seu tálamo "(vv.15-16). A dimensão comunitária é um elemento essencial na fé e na vida cristã. Cristo veio "para reunir os filhos de Deus que andavam dispersos" (cf. Jo 11:52). O "nós" da Igreja é a comunidade na qual Jesus nos une (cf. Jo 12:32), a fé é necessariamente a Igreja. E isso é importante para recordar e viver neste tempo de Quaresma: cada pessoa tem consciência de que não o penitencial lidar com isso sozinho, mas junto com muitos irmãos e irmãs da Igreja.

     O profeta, então, concentra-se nas orações dos sacerdotes, que, com lágrimas nos olhos, eles se voltam para Deus, dizendo: "Não a tua herança ao opróbrio e zombaria das nações. Por que diriam entre os povos: Onde está o seu Deus? "(V.17). Esta oração nos faz refletir sobre a importância do testemunho de fé e de vida cristã de cada um de nós e da nossa comunidade para mostrar o rosto da Igreja, e como que o rosto é, por vezes desfigurado. Refiro-me em particular sobre os pecados contra a unidade da Igreja, para as divisões no corpo da Igreja. Viver a Quaresma de uma forma mais intensa e evidente comunhão eclesial, superando o individualismo ea rivalidade é um sinal humilde e preciosa para aqueles que estão longe da fé ou indiferente.

     "Eis, agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação" ( 2 Cor 6:2). As palavras do apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto ressoar por nós com uma urgência que não permite ausências ou omissões. A palavra "agora" disse repetidamente que este tempo não pode ser desperdiçada, é-nos oferecido como uma oportunidade única. E o olhar do Apóstolo se concentra na partilha que Cristo escolheu para caracterizar sua vida, levando tudo humano para cuidar dos mesmos pecados. As palavras de São Paulo é muito forte: "Deus o fez pecado por nós." Jesus, o inocente, o Santo, "Aquele que não conheceu pecado" ( 2 Co 5:21), carrega o fardo de partilha de humanidade do pecado com o resultado de morte, e morte de cruz. Reconciliação oferecida a nós teve um preço elevado, o da cruz levantada no Gólgota, no qual estava pendurado, o Filho de Deus feito homem. Nesta imersão de Deus no sofrimento humano e do abismo do mal é a raiz de nossa justificação. O "retorno a Deus com todo o meu coração", em nosso caminho quaresmal através da cruz, seguir Cristo no caminho do Calvário, o dom total de si. É uma maneira para aprender todos os dias para obter mais e mais do nosso egoísmo e os nossos tampas, para dar espaço para Deus que se abre e transforma o coração. E como São Paulo lembra o anúncio do ressoar Cruz para nós através da pregação da Palavra, de que o próprio Apóstolo é um embaixador, um apelo para que façamos este caminho quaresmal é caracterizada por uma escuta mais cuidadosa e assídua da Palavra de Deus, luz que ilumina nossos passos.

     No Evangelho de Mateus, que pertence ao chamado Sermão da Montanha, Jesus refere-se a três práticas fundamentais exigidos pela Lei mosaica: a oração a esmola eo jejum são também indicações de caminho quaresmal tradicional para responder ao convite de «voltar para Deus com todo o teu coração." Mas ele ressalta que tanto a qualidade ea verdade do nosso relacionamento com Deus o que qualifica a autenticidade de cada ato religioso. Para isso, ele denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que quer olhar, as atitudes, buscando o aplauso e aprovação. O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo ou o "público", mas o seu Senhor, na simplicidade e generosidade: "E seu Pai, que vê em secreto, te recompensará" ( Mt 6,4.6.18). O nosso testemunho será sempre mais eficaz do que a menos que buscamos nossa própria glória e vamos estar ciente de que a recompensa do justo é o próprio Deus, para ser unidos a Ele, aqui, o caminho de fé e, ao fim da paz vida, e à luz do rosto vindo a face com Ele para sempre (cf. 1 Cor 13:12).

     Queridos irmãos e irmãs, nós começamos nosso caminho quaresmal confiando e alegre. Ressoar fortemente em nós o convite à conversão, para "voltar a Deus com todo o coração", aceitando a Sua graça que nos faz homens novos, com a surpreendente notícia que está a partilhar a própria vida de Jesus, nenhum de nós, portanto, é surdo a este apelo, não é também abordada no rito austero, tão simples e tão bela, a imposição das cinzas, que vamos utilizar em breve. Acompanha-nos neste momento a Virgem Maria, Mãe da Igreja e modelo de todo verdadeiro discípulo do Senhor. Amém!

Fonte: Boletim Diário da Santa Sé 

Emocionado, Cardeal Bertone homenageia Bento XVI durante Missa

Por Felipe Viana



     O Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcísio Bertone, prestou homenagem a Bento XVI, nesta quarta-feira, 13, no encerramento da Missa de imposição das cinzas, na Basílica de São Pedro, confessando “tristeza” pela renúncia ao pontificado, apresentada pelo Papa nesta segunda-feira, 11. 

“Com sentimentos de grande comoção e de profundo respeito, a Igreja, bem como todo o mundo, tomaram conhecimento da notícia da sua decisão de renunciar ao ministério de bispo de Roma, sucessor do Apóstolo Pedro”, disse o cardeal Bertone, no final da missa de Quarta-feira de Cinzas, numa intervenção sublinhada com as palmas dos fiéis presentes na celebração.

     O mais direto colaborador do Papa falou num “véu de tristeza” por causa da resignação de Bento XVI, apresentada nesta segunda-feira, elogiando o atual pontificado, que comparou a “uma janela aberta sobre a Igreja e sobre o mundo que filtrou os raios da verdade e do amor de Deus”, sobretudo “nos momentos em que as nuvens eram densas no céu”.

   “Todos nós compreendemos que é o amor profundo que vossa santidade tem por Deus e pela Igreja que o levou a este ato, revelando a pureza de alma, a fé robusta e exigente, a força da humildade e a mansidão, juntamente com uma grande coragem, que marcaram cada passo da sua vida”, prosseguiu.

     Dom Tarcisio Bertone destacou que a Igreja “se renova sempre, renasce sempre” e que a decisão “sofrida” do Papa é um “grande ensinamento” para todos os católicos.

     “Esta tarde queremos dar graças a Deus pelo caminho que toda a Igreja fez sob a orientação de vossa santidade e queremos dizer-lhe do mais fundo do nosso coração, com grande afeto, comoção e admiração: obrigado por ter-nos dado o luminoso exemplo de simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor”, concluiu.

     O Papa alemão, eleito em abril de 2005, vai concluir o seu pontificado a 28 de fevereiro, abrindo caminho à eleição de um sucessor.



Fonte: Ecclesia 

Fotos da última celebração de Bento XVI em São Pedro

Por Felipe Viana 



























Missa com rito das cinzas: última celebração de Bento XVI em São Pedro. "Renovar a fé no Pastor Supremo: Cristo Senhor".

Por Felipe Viana 



     Intensa e muito participada a Missa desta quarta-feira de Cinzas, a última celebração de Bento XVI em São Pedro. Uma "ocasião propícia - disse o Papa na homilia - para agradecer a todos, agora que me preparo para concluir o ministério petrino". Bento XVI invocou a intercessão do Apóstolo Pedro "em favor do caminho da Igreja, neste momento particular" e convidou todos a "renovarem a fé no Pastor Supremo, Cristo Senhor". Como fizera de manhã, na audiência geral, Bento XVI voltou a encomendar-se às orações dos fiéis.

Fonte: Radio Vaticano 

terça-feira, 6 de março de 2012

Discurso de Bento XVI ao final de seu retiro quaresmal 04/03/12

Por Felipe Viana





Discurso
Encerramento dos exercícios espirituais de Bento XVI e da Cúria Romana
Capela Redemptoris Mater
Vaticano
03/03/2012



Eminência,
Queridos irmãos,


Ao final destes dias de oração e de escuta, convém dizer: obrigado. Em nome de todos vocês digo obrigado ao senhor, Eminência, pela direção que nos deu nestes exercícios. O senhor nos guiou - por assim dizer - no grande jardim da primeira carta de São João e assim em toda a Escritura, com grande competência exegética e com experiência espiritual e pastoral. Dirigiu sempre um olhar em direção aDeus, e exatamente com este olhar em direção a Deus, aprendemos o amor, a fé que cria comunhão. E o Senhor conduziu essas meditações com belas histórias, primordialmente tiradas da sua cara terra africana, que nos deram alegria e nos ajudaram.

Eu fiquei particularmente tocado com aquela história que o senhor falava de um amigo que, estando em coma, tinha a impressão de estar em um túnel escuro, mas ao final via um pouco de luz e sobretudo escutava uma bela música. Me parece que esta possa se uma parábola da nossa vida:
às vezes nos encontramos em um túnel em plena noite, mas, pela fé, ao final vemos luz e sentimos uma bela música, percebemos a beleza de Deus, do céu e da terra, de Deus criador e da criatura, e assim, é verdadeiro, spe sumus salvos (Rom 8,24)
Ao Senhor, Eminência, que nos confirmou na fé, na esperança e na caridade.

Obrigado!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Quaresma é ótima ocasião para confessar-se, salienta arcebispo

Por Felipe Viana



O Arcebispo de Nova York, Cardeal Timothy Dolan, criou um blog (http://blog.archny.org/) em que publica mensagens de conteúdo espiritual.

Em um de seus últimos posts, ainda estando em Roma para ser criado cardeal e participar do último consistório, ele escreveu: “É geralmente uma das primeiras coisas que eu faço no meu primeiro dia completo quando volto a Roma... No início da manhã eu desço o monte Gianicolo - onde fico no Colégio Americano - rumo à Basílica de São Pedro para me confessar e celebrar Missa”.

Para o arcebispo, a Eucaristia e a Reconciliação são dois Sacramentos poderosos, que devem ser constantes na vida espiritual.

“Eu não quero que você pense que eu só confesso quando estou em Roma! Em casa, em Nova York, eu procuro me confessar a cada duas semanas, porque eu preciso. Mas aqui em Roma há uma urgência e um sentido especiais”, destacou.

Mas para DomTimothy Dolan, estar perto do túmulo de São Pedro, faz ele lembrar de maneira mais viva a pergunta que Jesus fez a Pedro: "Simão, tu me amas?", o que faz ele examinar sua consciência para pensar nos momentos em que deixou de amar a Deus e de cuidar de suas ovelhas.

“Perto de sua tumba, eu me imagino, como São Pedro, duvidando de Jesus e afundando nas águas tempestuosas. Ao lado de seu túmulo, eu até admito que tenho, como Pedro, negado Jesus em meus pensamentos, palavras e obras. Dessa forma a minha contrição é forte, o meu propósito de emenda firme e eu me dirijo a um dos franciscanos para confessar no canto da enorme basílica”, escreve o Arcebispo.

Depois de rezar sua penitência, diante do túmulo de Pedro, sob o altar-mor , Dom Dolan conta que então vai se paramentar para a maior de todas as orações, o Santo Sacrifício da Missa.


Fonte: Da Redação, com Arautos do Evangelho

Bento XVI reflete sobre ruptura com Deus dentro da Igreja

Por Felipe Viana




As meditações deste retiro do Papa e da Cúria Romana estão sendo
 conduzidos pelo Arcebispo africano Dom Laurent Monsengwo.
    Na manhã desta quarta-feira, 29, a meditação do Papa Bento XVI e da Cúria Romana foi dedicada ao tema da ruptura da comunhão com Deus, especialmente no interior da Igreja.

O
autor da meditação, o Arcebispo de Kinshasa, Cardeal Laurent Monsengwo Pasinya, propôs a Bento XVI e aos membros da Cúria Romana, reunidos na Capela Redemptoris Mater do Palácio Apostólico, duas reflexões intituladas “O amor do mundo” e “Os anticristos ou a falta de fé em Jesus, o Cristo”.

Na tarde desta quarta-feira, a meditação do programa é intitulada “O pecado do sacerdote”. As meditações são inspiradas na primeira Carta de São João.

Os exercícios espirituais seguem até este sábado, 3, sobre o tema central "A comunhão do cristão com Deus". Devido ao retiro, a Catequese do Papa desta quarta-feira foi suspensa.



Fonte: Redação CN, com Rádio Vaticano (Tradução: equipe CN Notícias)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Santa Missa,de benção e imposição de Cinças

Por Felipe Viana


 
Homilia do Santo Padre Bento XVI

Basilica di Santa Sabina
Mercoledì delle Ceneri, 22 febbraio 2012


Veneráveis ​​Irmãos,
Queridos irmãos e irmãs!
Este dia de penitência e jejum - Quarta Feira de Cinzas - inicia uma nova jornada rumo à Páscoa: a viagem da Quaresma. Gostaria de abordar brevemente a refletir sobre o sinal litúrgico das cinzas, um sinal material, um elemento da natureza, que se torna um símbolo sagrado na Liturgia, neste itinerário dia muito importante que começa a Quaresma. Anteriormente, na cultura judaica, o uso de regar as cinzas sobre suas cabeças em sinal de penitência era comum, muitas vezes combinados com lotes de se vestir ou pano.

Para nós, cristãos, no entanto, há neste momento um, que também tem um ritual importante e significado espiritual.

Primeiro, a cinza é um desses sinais materiais que levam os cosmos dentro da Liturgia. As principais são, obviamente, os sacramentos: água, óleo, pão e vinho, que se tornam reais sobre os meios sacramentais através dos quais comunica a graça de Cristo vem a nós. Se a cinza é mais um sinal não sacramental, mas ainda ligado à oração e à santificação do povo cristão: há, de fato, antes que o indivíduo em sua cabeça, uma bênção especial das cinzas - que vamos fazer em breve - com duas fórmulas possíveis. No início, eles são chamados de "símbolo austera" na segunda directamente invoca a bênção sobre eles e são referenciados ao texto do Livro do Gênesis, que também podem acompanhar o gesto: "Tu és pó e ao pó voltarás

"(cf. Gen 3,19).

Detenhamo-nos um momento sobre esta passagem em Gênesis. Conclui a sentença pronunciada por Deus após o pecado original: Deus amaldiçoa a serpente, que fez cair em pecado o homem ea mulher, então pune a mulher anunciando as dores do parto e relação desequilibrada com o marido, depois pune o 'Cara, anuncia o trabalho duro e maldições no solo. "Maldita é a terra por tua causa" (Gn 3:17), por causa do seu pecado. Então, o homem ea mulher não estão diretamente amaldiçoou a serpente como é o caso, mas, por causa do pecado de Adão, a terra é amaldiçoada, a partir do qual ele tinha sido levado. Releia a história magnífica da criação do homem da terra: "Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida eo homem se tornou um ser vivente.

Então o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, no leste, e pôs ali o homem que havia formado "(Gn 2:7-8), assim, no Livro do Gênesis.

Aqui, então, que o sinal das cinzas nos leva de volta ao grande afresco da criação, que diz que o ser humano é uma unidade singular da matéria e do sopro divino, a imagem do pó da terra moldada por Deus e animada por seu soprou em suas narinas o fôlego da nova criatura. Podemos observar que no relato do Gênesis sobre o símbolo do pó passando por uma negativa por causa do pecado. Enquanto antes da queda do solo é um bom potencial plenamente, regada por uma fonte de água (Gn 2,6) e capaz para o trabalho de Deus, para germinar, "toda árvore que é agradável à vista e boas para comida" (Gn 2,9), após a queda e conseqüente maldição divina que irá produzir "espinhos e abrolhos" e apenas em troca de "dor" e "suor do rosto" homem dá os seus frutos (cf. Gen 3,17 - 18).

O pó da terra não só atrai o ato mais criativo de Deus, tudo está aberto à vida, mas torna-se um sinal de um destino inexorável da morte: "Tu és pó e ao pó voltarás" (Gn 3,19).

É evidente no texto bíblico que a parte da terra do destino do homem. Neste sentido, São João Crisóstomo, em uma homilia: "Veja como depois de sua desobediência tudo é imposto a ele [o homem] de forma contrária ao seu estilo de vida anterior" (Homilias sobre o Gênesis 17, 9: PG 53 , 146). Esta maldição do solo tem uma função para o homem da medicina, a "resistência" da terra devem ser ajudados a permanecer dentro de seus limites e reconhecer a sua natureza (cf. ibid.). Assim, com uma belíssima síntese, expressa outro comentário antigo, que diz: "Adão foi criado puro por Deus para o seu serviço. Todas as criaturas foram autorizados a servir. Ele estava destinado a ser o senhor e rei de todas as criaturas. Mas quando o mal veio até ele e conversar com ele, ele recebeu através de um público externo. Em seguida, ele penetrou seu coração e tomou posse de todo o seu ser.

Quando foi capturado, o estabelecimento, que tinha ajudado e servido, foi capturado com ele "(Pseudo-Macário, Homilias 11, 5: PG 34, 547).
Dizíamos há pouco, citando São João Crisóstomo, que a maldição do solo tem 'medicamento' uma função. Isto significa que a intenção de Deus, que é sempre benéfico, é mais profundo do que a maldição. Este fato não é devido a Deus, mas para o pecado, mas Deus não pode deixar de infligir-lo, porque ele respeita a liberdade humana e suas conseqüências, até mesmo os negativos. Assim, na punição, e até mesmo na Maldição do solo, ainda há uma boa intenção que vem de Deus quando Ele diz ao homem: "Tu és pó e ao pó voltarás!", Juntamente com o justo castigo também planeja anunciar um caminho de salvação, que vai passar por dentro da terra, através do "pó", a "carne" que será assumida pelo Verbo. E 'nesta perspectiva que a mensagem salvífica do Gênesis é tirada da liturgia da Quarta Feira de Cinzas: como um apelo à humildade, arrependimento, a ter sua atual condição mortal, mas não para terminar em desespero, mas para receber, apenas no Essa mortalidade nosso, a proximidade impensável de Deus, que, após a morte, abre a passagem para a ressurreição, o céu finalmente encontrado. Nesse sentido, orienta-nos um texto de Orígenes, que diz: "O que era inicialmente carne da terra, um homem de pó (cf. 1 Cor 15,47), e foi dissolvida pela morte, e novamente fez a poeira e cinzas - porque está escrito: porque és pó e ao pó voltarás - é ressuscitado novamente a partir da terra.

Mais tarde, de acordo com os méritos da alma que habita o corpo, a pessoa avançar a glória de um corpo espiritual "(Sobre os Princípios 3, 6, 5: Sch, 268, 248).



Os méritos "da alma", mencionado por Orígenes, são necessários, mas os fundamentos são os méritos de Cristo, a eficácia do seu mistério pascal. São Paulo ofereceu uma formulação sintética da Segunda Carta aos Coríntios, a segunda leitura de hoje: "Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, porque nele nos tornássemos justiça de Deus" (2 Cor 5 21). A possibilidade para nós do perdão de Deus depende, essencialmente, o fato de que o próprio Deus, na pessoa de seu Filho, queria partilhar a nossa condição, mas a corrupção do pecado. E o Pai o ressuscitou com o poder do seu Espírito Santo e Jesus, novo Adão, tornou-se, como diz São Paulo, "espírito vivificante" (1 Cor. 15:45), os primeiros frutos da nova criação. O mesmo Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos pode transformar os nossos corações de corações de pedra em corações de carne (cf. Ez 36:26). Chamamos há pouco com o Miserere Salmo: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro, / renovar um espírito inabalável dentro de mim. / Não me banir da tua presença / e não retires o teu espírito santo "(Sl 50,12-13). Aquele Deus que levou os antepassados ​​do Éden, enviou o seu Filho em nossa terra devastada pelo pecado, não salvo, para que nós, filhos pródigos, podemos voltar, arrependido e nos redimiu pela Sua misericórdia, no nosso verdadeiro lar. Que assim seja, para cada um de nós, para todos os crentes, para cada homem que humildemente reconhece a necessidade de salvação.


© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana




Audiência Geral Por sua Santidade Bento XVI

Por Felipe Viana


Sala Paulo VI
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012





Quarta-feira de Cinzas

Queridos irmãos e irmãs,
Nos próximos quarenta dias, que nos levarão até ao Tríduo Pascal – celebração da paixão, morte e ressurreição de Cristo –, somos convidados a viver um caminho de conversão e renovação espiritual, que nos faça sair de nós mesmos para ir ao encontro do Senhor. Este período será um tempo propício para uma experiência mais profunda de Deus, que torne forte o espírito, confirme a fé, alimente a esperança e anime a caridade. Poderemos assim ver e recordar tudo aquilo que Ele fez por nós. Daí concluiremos que só o Senhor nos merece; e, sem mais adiamentos nem hesitações, entregar-nos-emos nas suas mãos.

E Cristo tornar-nos-á participantes da vitória sobre o pecado e a morte, que Ele nos alcançou com o seu amor levado até ao extremo da imolação por nós na cruz. Seguindo o caminho da cruz com Jesus, ser-nos-á aberto o mundo luminoso de Deus, o mundo da luz, da verdade e da alegria. Inundados por esta luz, ganharemos nova coragem para aceitar, com fé e paciência, todas as dificuldades, aflições e provações da vida, sabendo que, das trevas, o Senhor fará surgir a alvorada nova da ressurreição.
* * *
A minha saudação amiga para o grupo escolar da Lourinhã e todos os peregrinos presentes de língua portuguesa. A Virgem Maria tome cada um pela mão e vos acompanhe durante os próximos quarenta dias que servem para vos conformar ao Senhor ressuscitado. A todos desejo uma boa e frutuosa Quaresma!




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

MENSAGEM DO SANTO PADRE PARA A QUARESMA 2012

Por Felipe Viana



«Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras»


(Heb 10, 24)


Irmãos e irmãs!


A Quaresma oferece-nos a oportunidade de reflectir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.


Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre actual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.


1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.


O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objecto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo actual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).


A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.


O facto de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correcção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correcção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais rectamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.


2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.


O facto de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a actual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correcção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.


Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a acção do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).


3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.


Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efectivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.


Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).


Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.


Vaticano, 3 de Novembro de 2011
BENEDICTUS PP XVI


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Terceira pregação de Quaresma à Cúria Romana, em presença do Papa, pelo padre Raniero Cantalamessa. Na íntegra!



Por Felipe Viana


A CARIDADE SEM FINGIMENTO


1. Amarás o teu próximo como a ti mesmo

Um fato notável: o rio Jordão, no seu curso, forma dois mares – o mar da Galileia e o mar Morto. O mar da Galileia é borbulhante de vida, com águas das mais piscosas da terra. O mar Morto é precisamente “morto”: não há rastro de vida nem nele nem ao redor; somente sal. E se trata da mesma água do Jordão!

A explicação, pelo menos em parte, é esta: o mar da Galileia recebe as águas do Jordão, mas não as retém para si; deixa fluírem, para irrigarem todo o vale do Jordão. Já o mar Morto recebe as águas e as retém para si, não tem efluentes, dali não sai uma gota. É um símbolo. Para receber o amor de Deus, devemos dá-lo aos irmãos, e, quanto mais damos, mais recebemos. É sobre isto que refletiremos nesta meditação.

Depois de refletir nas duas primeiras meditações sobre o amor de Deus como dom, é hora de meditarmos também sobre o dever de amar; e, em particular, sobre o dever de amar o próximo. O vínculo entre os dois amores é exposto de modo programático na palavra de Deus: “Se Deus nos amou tanto, nós devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4,11).
“Amarás o próximo como a ti mesmo” era um mandamento antigo, escrito na lei de Moisés (Lev 19,18) e Jesus mesmo o cita como tal (Lc 10,27). Então como é que Jesus o chama de “seu” mandamento e de mandamento “novo”? A resposta é que mudaram o sujeito, o objeto e o motivo do amor ao próximo.

Mudou antes de tudo o objeto: quem é o próximo que deve ser amado. Não é mais só o compatriota, ou o hóspede que habita em meio a nós, mas todos os homens, inclusive o estrangeiro (o samaritano!), inclusive o inimigo! É verdade que a segunda parte da frase “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo” não se encontra ao pé da letra no Antigo Testamento, mas assume a sua orientação geral, expressa na lei de talião “Olho por olho, dente por dente” (Lev 24,20), ainda mais se confrontada com o que Jesus nos exige:

“Mas eu vos digo: amai os vossos inimigos e rezai por quem vos persegue, para serdes filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos. Se amais os que vos amam, que mérito tendes? Não fazem o mesmo os publicanos? E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Assim não agem também os pagãos?” (Mt 5, 44-47).
Mudou também o sujeito do amor ao próximo, o significado da palavra próximo. Não é o outro; sou eu. Não é quem está perto, mas quem se aproxima. Com a parábola do bom samaritano, Jesus demonstra que não devemos esperar passivamente que o próximo surja em nosso caminho, dando seta e de sirene ligada. O próximo é você, ou aquele que você pode se tornar. O próximo não existe de cara; só temos um próximo se nos aproximamos de alguém.

E mudou, mais do que tudo, o modelo ou a medida do amor ao próximo. Antes de Jesus, o modelo era o amor a si mesmo: “como a ti mesmo”. Foi dito que Deus não podia amarrar o amor ao próximo numa estaca melhor que esta; não teria atingido o mesmo resultado nem se tivesse dito “Amarás o próximo como ao teu Deus”, porque quanto ao amor de Deus, ou seja, quanto ao que é amar a Deus, o homem ainda pode trapacear, mas quanto ao amor a si mesmo, não. O homem sabe perfeitamente o que significa, em qualquer circunstância, amar a si mesmo; é um espelho que está sempre diante dele [1].

Mas é possível enxergar mal até o amor a si mesmo. Por isso Jesus substitui o modelo e a medida por outro: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12). O homem pode amar a si mesmo do jeito errado, desejando o mal em vez do bem, o vício e não a virtude. Se um homem desses ama o próximo como a si mesmo e quer para ele o mesmo que quer para si, pobre de quem é amado! Já o amor de Jesus, sabemos aonde nos leva: à verdade, ao bem, ao Pai. Quem o segue “não anda nas trevas”. Ele nos amou dando a vida por nós, quando éramos pecadores, ou seja, inimigos (Rom 5,6).

Entende-se assim o que o evangelista João quer dizer com a afirmação aparentemente contraditória: “Caríssimos, não vos escrevo um mandamento novo, mas um mandamento velho, que tínheis desde o princípio: o mandamento velho é a palavra que ouvistes. E é, no entanto, um mandamento novo o que vos escrevo” (1Jo 2, 7-8). O mandamento do amor ao próximo é antigo na letra, mas novo pela novidade do evangelho. Novo, explica o papa num capítulo de seu mais recente livro sobre Jesus, porque não é mais só “lei”, mas também, e antes, “graça”. Funda-se na comunhão com Cristo, possível pelo dom do Espírito [2].

Com Jesus, passamos da lei do contrappasso, ou entre dois agentes (“O que o outro te faz, fá-lo a ele”) para a lei do trapasso, entre três agentes: “O que Deus te fez, fá-lo ao próximo”, ou, na direção oposta, “O que fizeres com o próximo, Deus fará contigo”. Jesus e os apóstolos repetem este conceito: “Como Deus vos perdoou, perdoai-vos uns aos outros”. “Se não perdoardes de coração aos vossos inimigos, nem vosso pai vos perdoará”. É cortada pela raiz a desculpa do “mas ele não me ama, me ofende”. Isto diz respeito a ele, não a você. A você interessa o que você faz ao outro e como você se comporta diante do que ele faz a você.

Resta a principal pergunta: por que esta singular mudança de rota do amor de Deus ao próximo? Não seria mais lógico “Como eu vos amei, amai a mim” em vez de “Como eu vos amei, amai-vos uns aos outros”? Pois esta é a diferença entre o amor puramente eros e o amor que é eros e ágape juntos. O amor puramente erótico é um circuito fechado: “Ama-me, Alfredo, ama-me como eu te amo”, canta Violeta na Traviata de Verdi: eu te amo, tu me amas. O amor de ágape é um circuito aberto: vem de Deus e volta a ele, mas passando pelo próximo. Jesus inaugurou ele próprio esse novo tipo de amor: “Como o Pai me amou, eu amei a vós” (Jo 15,9).

Santa Catarina de Sena deu sobre o motivo disto a explicação mais simples e convincente. Ela escreve o que considera que Deus quer:

“Eu vos peço amar-me com o mesmo amor com que vos amo. Mas não podeis, já que vos amei sem ser amado. Todo o amor que me tendes é de dívida, não de graça, porque devestes amar-me, enquanto eu vos amo com amor de graça, e não de dívida. Não podeis, pois, dar a mim o amor que vos peço. Eis por que vos pus ao lado o vosso próximo: para lhe fazerdes o que a mim não podeis, que é amá-lo sem consideração de mérito nem à espera de utilidade. E considero que fazeis a mim o que fizerdes a ele” [3].

2. Amai-vos de coração sincero

Depois destas reflexões gerais sobre o mandamento do amor ao próximo, é hora de falar das qualidades que devem revestir esse amor. São fundamentalmente duas: deve ser um amor sincero e um amor de fato, um amor do coração e das mãos. Desta vez nos ateremos à primeira qualidade, deixando-nos guiar pelo grande cantor da caridade, que é Paulo.

A segunda parte da Carta as Romanos é um subseguir-se de recomendações sobre o amor recíproco na comunidade cristã. “A caridade não seja fingida [...]; amai-vos uns aos outros com afeto fraterno, esforçai-vos no recíproco estimar-se…” (Rm 12, 9). “Não devais a ninguém, senão um amor mútuo, porque quem ama seu semelhante cumpriu a lei” (Rm 13,8).

Para captar a alma unificante destas recomendações, a ideia de fundo, ou melhor, o “sentimento” que Paulo tem da caridade, temos que partir da palavra inicial: “A caridade não seja fingida!”. Esta não é uma das muitas exortações, mas a matriz de que derivam todas as outras. Contém o segredo da caridade. Procuremos captar, com a ajuda do Espírito, esse segredo.

O termo original usado por São Paulo, e traduzido como “sem fingimento”, é an-hypòkritos: “sem hipocrisia”. Este vocábulo é uma espécie de luz indicadora; é um termo raro, que achamos no Novo Testamento quase exclusivamente para definir o amor cristão. A expressão “amor sincero” (an-hypòkritos) volta em 2 Cor 6,6 e em 1 Pd 1,22. Este último texto permite notar, com toda a certeza, o significado do termo em questão, porque o explica com uma perífrase: o amor sincero, diz, consiste no amar-se intensamente com sincero coração.

São Paulo, então, com aquela simples afirmação, “a caridade não seja fingida”, leva o tema até a própria raiz da caridade: o coração. O que se pede do amor é que seja verdadeiro, autêntico, não fictício. Como o vinho, para ser “sincero”, precisa ser espremido da uva, assim o amor precisa vir do coração. Também nisso o Apóstolo é o eco fiel do pensamento de Jesus, que indicou o coração, repetidamente e com força, como o “lugar” em que se determina o valor do que o homem faz, o que é puro ou impuro, na vida de uma pessoa (Mt 15,19).

Podemos falar de uma intuição paulina a respeito da caridade; ela consiste em revelar, por trás do universo visível e exterior da caridade, feito de obras e palavras, outro universo todo interior, que é, em comparação com o primeiro, o que a alma é para o corpo. Revemos esta intuição no outro grande texto sobre a caridade, que é 1 Cor 13. São Paulo, se observamos bem, está falando da caridade interior, das disposições e sentimentos de caridade: a caridade é paciente, é benigna, não é invejosa, não se irrita, tudo releva, tudo crê, tudo espera… Nada que se refira, em si e diretamente, ao fazer o bem, ou às obras de caridade, mas à raiz do querer bem. A benevolência vem antes da beneficência.

É o Apóstolo mesmo quem explicita a diferença entre as duas esferas da caridade, dizendo que o maior ato de caridade exterior – o de repartir com os pobres todos os próprios bens – não serviria de nada sem a caridade interior (cf. 1 Cor 13,3). Seria o oposto da caridade “sincera”. A caridade hipócrita, de fato, é justo a que faz coisas boas sem querer bem; que mostra por fora o que não tem correspondência no coração. Neste caso, temos uma pequenez da caridade, que no fim pode ser disfarce de egoísmo, da busca de si mesmo, instrumentalização do irmão ou simples remorso de consciência.

Seria um erro fatal contrapor a caridade do coração à dos fatos, ou refugiar-se na caridade interior para achar nela uma espécie de álibi da falta de caridade nas obras. No mais, dizer que, sem a caridade, “nada adianta dar tudo aos pobres” não significa que isto não sirva para ninguém e seja inútil. Significa, sim, que não serve de nada “para mim”, mas pode ajudar o pobre que a recebe. Não se trata, portanto, de atenuar a importância das obras de caridade (veremos isto na próxima vez), mas de garantir que elas tenham fundamento firme contra o egoísmo e as suas astúcias infinitas. São Paulo quer que os cristãos sejam “enraizados e fundados na caridade” (Ef 3,17): que o amor seja a raiz e o fundamento de tudo.

Amar sinceramente quer dizer amar com esta profundidade, num grau em que você não pode mentir, porque está sozinho diante de si mesmo, do espelho da sua consciência, sob o olhar de Deus. “Ama o irmão”, escreve Agostinho, “aquele que, perante Deus, onde só ele vê, confirma o seu coração e se pergunta no íntimo se em verdade age por amor do irmão; e o olhar que penetra o coração, onde o homem não consegue enxergar, lhe rende testemunho” [4]. Era sincero, portanto, o amor de Paulo pelos hebreus se ele podia dizer: “Eu digo a verdade em Cristo, não minto; pois a minha consciência o confirma por meio do Espírito Santo; trago no peito grande tristeza e sofrimento contínuo; quisera eu mesmo ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus parentes segundo a carne” (Rm 9, 1-3).

Para ser genuína, a caridade cristã deve partir de dentro, do coração. E as obras de misericórdia, “das vísceras da misericórdia” (Col 3,12). Devemos, porém, precisar que se trata aqui de algo bem mais radical que a simples “interiorização”, que um mero acentuar mais a prática interna da caridade do que a externa. Este é só o primeiro passo. A interiorização se aproxima da divinização! O cristão, dizia São Pedro, é quem ama “de coração sincero”. Mas com que coração? Com “o coração novo e o Espírito novo” recebidos no batismo.

Quando um cristão ama assim, é Deus quem ama através dele; ele se torna um canal do amor de Deus. Acontece como pela consolação, que não é mais que uma modalidade do amor: “Deus nos consola em toda nossa tribulação para podermos nós também consolar os que sofrem todo tipo de aflição com a mesma consolação com que somos consolados por Deus” (2 Cor 1,4). Nós consolamos com a consolação com que somos consolados por Deus, amamos com o amor com que somos amados por Deus. Não com outro. Isto explica a ressonância, aparentemente desproporcionada, de simplíssimos atos de amor, tantas vezes até escondidos, e toda a esperança e luz que eles criam ao seu redor.

3. A caridade edifica

Quando se fala da caridade nos escritos apostólicos, nunca se fala em abstrato, de modo genérico. O fundo é sempre a edificação da comunidade cristã. Em outras palavras, o primeiro âmbito de exercício da caridade tem que ser a Igreja e, mais concretamente, a comunidade em que se vive, as pessoas com que se têm relações cotidianas. Assim deve ser hoje ainda, em particular no coração da Igreja, entre os que trabalham em contato estreito com o Sumo Pontífice.

Durante certo tempo, na antiguidade, designou-se com o termo caridade, ágape, não só a refeição fraterna que os cristãos faziam juntos, mas também a Igreja inteira [5]. O mártir Santo Inácio de Antioquia saúda a Igreja de Roma como a que “preside a caridade (ágape)”, ou seja, a “fraternidade cristã”, no conjunto de todas as igrejas [6]. Esta frase não afirma só o fato do primado, mas também a sua natureza, o modo de exercê-lo: na caridade.

A Igreja tem necessidade urgente de uma camada de caridade que restaure as suas fraturas. Paulo VI dizia num discurso: “A Igreja precisa sentir refluir por todas as suas faculdades humanas a onda do amor, daquele amor que se chama caridade, e que se difunde em nossos corpos por obra do Espírito Santo dado a nós” [7].  Só o amor cura. É o óleo do samaritano. Óleo também porque tem que flutuar acima de tudo, como o óleo sobre os líquidos. “Acima de tudo esteja a caridade, vínculo da perfeição” (Col 3,14). Acima de tudo, super omnia. Portanto, acima da fé e da esperança, da disciplina, da autoridade, ainda que, evidentemente, as próprias disciplina e autoridade podem ser uma expressão da caridade. Não há unidade sem caridade, e, se houvesse, seria uma unidade de pouco valor para Deus.

Um âmbito importante em que trabalhar é o dos julgamentos mútuos. Paulo escrevia aos Romanos: “Por que julgas o teu irmão? Por que desprezas o teu irmão? Deixemos de julgar-nos uns aos outros” (Rm 14, 10.13). Antes dele, Jesus tinha dito: “Não julgueis, para não serdes julgados. [...] Por que observas o cisco no olho do teu irmão e não vês a trave no teu?” (Mt 7, 1-3). Compara o pecado do próximo (o pecado julgado), seja qual for, a um cisco, diante do pecado de quem julga (o pecado de julgar), que é uma trave. A trave é o próprio fato de julgar, tão grave ele é perante Deus.

O discurso sobre julgamentos é delicado e complexo. Se ficar pela metade, parece pouco realista. Como é que se pode viver sem julgar nunca? O juízo é implícito em nós até num olhar. Não podemos observar, escutar, viver, sem fazer avaliações, ou seja, sem julgar. Um pai, um superior, um confessor, um juiz, qualquer um que tenha responsabilidade sobre outros, precisa julgar. Às vezes, até, como é o caso de muitos aqui na cúria, o julgar é, precisamente, o tipo de serviço que se é chamado a prestar à sociedade ou à Igreja.

Realmente, não é tanto o julgar que deve ser extirpado do nosso coração, mas o veneno do nosso julgar! O rancor, a condenação. Na redação de Lucas, o mandado de Jesus “Não julgueis e não sereis julgados” é seguido imediatamente, como para explicitar o sentido destas palavras, pelo mandado “Não condeneis e não sereis condenados” (Lc 6,37). Em si, julgar é uma ação neutra. O juízo pode terminar tanto em condenação quanto em absolvição e justificação. São os juízos negativos os que a palavra de Deus reprime e elimina, aqueles que condenam o pecador junto com o pecado, aqueles que olham mais para a punição do que para a correção do irmão.

Outro ponto qualificador da caridade sincera é a estima: “Lutai para vos estimardes mutuamente” (Rm 12,10). Para estimar o irmão, é preciso não estimar demais a si mesmo, não ser sempre seguro de si. É preciso, diz o Apóstolo, “não ter uma visão alta demais de si próprio” (Rm 12,3). Quem tem uma ideia muito alta de si mesmo é como um homem que, à noite, tem diante dos olhos uma fonte de luz intensa: não consegue ver nada além dela; não consegue ver a luz dos irmãos, seus dotes e seus valores.

“Minimizar” deve se tornar o nosso verbo preferido nas relações com os outros: minimizar os nossos destaques e minimizar os defeitos alheios. Não minimizar os nossos defeitos e os destaques alheios, como somos tantas vezes levados a fazer; é diametralmente o oposto! Há uma fábula de Esopo a este respeito; reelaborada por La Fontaine, ela diz assim:

“Ao chegar a este vale, cada um traz ao ombro um duplo embornal. Dentro do embornal dianteiro, lança prazenteiro os defeitos do próximo, enquanto no outro lança os próprios” [8].
Deveríamos inverter: lançar os nossos próprios defeitos na sacola que temos à nossa frente, e os defeitos dos outros deixá-los na sacola que fica para trás. São Tiago admoesta: “Não faleis mal uns dos outros” (Tg 4,11). A fofoca parece ter virado coisa inocente, mas é uma das que mais poluem a vida em grupo. Não basta não falar mal dos outros; precisamos também impedir que os outros o façam em nossa presença; fazê-los notar, mesmo que silenciosamente, que não estamos de acordo. Como é diferente o ar que respiramos num ambiente de trabalho ou numa comunidade quando levamos a sério a admoestação de São Tiago! Em muitos locais públicos está escrito “Aqui não se fuma”. Antigamente havia até alguns avisos de “Aqui não se blasfema”. Não faria mal acrescentar, em alguns casos, “Aqui não se fofoca”.

Terminemos ouvindo como dirigida a nós mesmos a exortação do Apóstolo à comunidade dos filipenses, tão amada por ele: “Tornai plena a minha alegria cultivando um só pensar, um mesmo amor, sendo unânimes e nutrindo um só sentimento. Nada façais por espírito de separação ou por vanglória, mas, com humildade, cada um repute os outros superiores a si mesmo, procurando não o próprio interesse, mas o do próximo. Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fil 2, 2-5).

[Traduzido do original italiano por ZENIT]

Notas:
1. Cf. S. Kierkegaard, Os atos do amor, versão italiana, Milão, Rusconi, 1983, p. 163.
2. Bento XVI, Jesus de Nazaré, II Parte, Livraria Editora Vaticana, 2011, p. 76.
3. S. Catarina de Sena, Diálogo 64.
4. S. Agostinho, Comentário à Primeira Carta de João, 6,2 (PL 35, 2020).
5. Lampe, A Patristic Greek Lexicon, Oxford 1961, p. 8
6. S. Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, saudação.
7. Audiência geral de 29 de novembro de 1972 (Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, X, pp. 1210).
8. J. de La Fontaine, Fábulas, I, 7
 
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